Friday, November 25, 2005

"A sustentabilidade das empresas se traduz em lucro", Valor Economico, 3/10/05

Por: Mara Luquet

Talvez não seja uma boa idéia comprar ações de uma empresa cujo carro-chefe de seus produtos seja a máquina de escrever. Relíquia num mundo digital, ela ocupa hoje, na melhor das hipóteses, lugar privilegiado na decoração de algumas casas de escritores, jornalistas e saudosistas de um tempo que definitivamente não volta mais. Pelo mesmo motivo, investidores que num passado não muito distante vislumbraram a relevância que teria os computadores pessoais nos lares modernos e ficaram ricos com ações de empresas como as da Microsoft , só para citar um exemplo.

Para fazer bons investimentos no longo prazo, melhor do que ir atrás de "dicas" é formar sua própria opinião sobre como será o futuro de consumidores, organizações e países. Esta análise vai chamar sua atenção para oportunidades de investimentos que podem se revelar verdadeiras minas. Além disso, vai alertar para riscos que hoje parecem não existir. Depois que esse mundo novo começar a se formar em sua imaginação, consulte relatórios de analistas sobre empresas que você acredita que vão se sobressair no futuro.
Neste sentido, vale a pena ler "A Humanidade e suas Fronteiras - do Estado Soberano à Sociedade Global", de Eduardo Felipe P. Matias, editado pela Editora Paz e Terra, que será lançado na próxima terça-feira, em São Paulo, na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Matias é doutor em direito internacional pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde também se graduou. É mestre em direito Internacional pela Universidade de Paris II e visiting scholar na Columbia University, em Nova York. Atualmente está em São Paulo e é sócio do escritório L.O. Baptista Advogados .
Veja, por exemplo, o que diz Matias no livro: "Um dos fenômenos mais importantes relacionados à ascensão da sociedade global é o surgimento de uma sociedade civil transnacional. As organizações não-governamentais são essenciais para a formação de uma consciência global e para o combate a determinados problemas comuns da humanidade - e o poder de pressão por elas exercido também tem conseqüências sobre a soberania estatal".
Matias observa que o maior crescimento das ONGs coincide com o período de aceleração do processo de globalização. "A aparição de problemas transnacionais, por exemplo, os de caráter ambiental - como o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio e a poluição transfronteiras -, levam ao surgimento de ONGs transnacionais e de alianças entre diversas ONGs em todo o mundo".
Se for assim, por mais que lhe pareça que as ações de uma empresa ofereçam boas oportunidades de ganhos, é fundamental analisar sua sustentabilidade no longo prazo, principalmente se estiver contando com essas ações para sua aposentadoria.
A empresa que ignorar esse cenário mostrado por Matias não se sustenta no longo prazo. Daí a importância de fazer um exame acurado dos investimentos socialmente responsáveis. Nunca é demais repetir: estas aplicações nada têm a ver com caridade. Estão amparadas em estudos que mostram que as companhias socialmente responsáveis devem ter vida mais longa e retornos mais atraentes do que outras que ignoram este novo modelo de sociedade. Essas empresas socialmente responsáveis, dizem os analistas, não terão seus lucros tragados por processos judiciais trabalhistas ou por pesadas multas ambientais ou simplesmente não sofrerão boicotes de consumidores mais propensos a prestigiar empresas que tenham compromissos com seus funcionários, com o meio ambiente, com a sociedade e com seus acionistas.
As empresas socialmente responsáveis estão amparadas por esses pilares e, pelas razões mostradas por Matias em seu livro, tendem a ter um futuro mais próspero do que outras que não respeitam esses valores.
No livro, Matias faz uma análise interdisciplinar da ascensão da sociedade global, que se deve a duas forças principais. A primeira é a globalização, impulsionada pela revolução tecnológica e pela atuação das empresas transnacionais e dos operadores financeiros. A segunda é a globalização jurídica, caracterizada pela crescente regulamentação internacional e pelo fortalecimento das organizações internacionais de cooperação e de integração regional. Enquanto a globalização torna as fronteiras que separam os Estados mais e mais permeáveis, o direito e as instituições globais, que unem a humanidade em torno de objetivos comuns, ampliam as suas próprias fronteiras.
Trata-se de um livro que vai ajudar a compreender de que forma a globalização e outros importantes fenômenos contemporâneos, como a revolução tecnológica, a integração regional e o fortalecimento das organizações internacionais, afetam o poder dos Estados.
Mara Luquet é editora da revista ValorInveste e autora do Guia Valor Econômico para o Planejamento da Aposentadoria.

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