Saturday, November 26, 2005

"Globalização afeta poder estatal, mas não representa o fim dos Estados", Agência USP de Notícias, 20/10/05


Por: Valéria Dias

O aumento das relações entre os países e, destes com instituições internacionais, está criando um novo tipo de globalização: a jurídica. Ela surgiu da necessidade da implementação de leis que regulassem essas atividades. "As nações acabam perdendo um pouco de poder, porque devem se submeter a regras e decisões adotadas por estas instituições", afirma o advogado Eduardo Felipe P. Matias.
Em sua tese de doutorado, apresentada à Faculdade de Direito da USP, o advogado analisou como a globalização está afetando o poder dos Estados. O estudo originou o livro A humanidade e suas fronteiras – do Estado soberano à sociedade global (Paz e Terra, 556 pags), lançado no último dia 4 de outubro, em São Paulo.Ele ressalta que essa perda de poder não significa o fim dos Estados ou a aculturação dos povos e que sempre haverá questões em que o Estado continuará atuando. “Mas é fundamental que os interesses coletivos sejam colocados à frente dos privados e que exista uma valorização das pessoas no plano internacional, sem deixar de lado a pluralidade das culturas”, defende. Matias explica que tanto a globalização econômica (aumento do comércio entre os países) como a financeira (o mercado financeiro internacional) foram impulsionadas pela revolução tecnológica (comunicação, transportes, internet) e pela atuação de instituições transnacionais. Um exemplo disso são as empresas transnacionais. Elas negociam e elaboram contratos internacionais que definem a lei que se aplicará em suas relações e adotam institutos, como a arbitragem, para resolver suas disputas. Além disso, nos últimos anos, houve um fortalecimento das instituições internacionais (que envolvem os Estados), principalmente na área econômica, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Também surgiram instituições supranacionais, como a Corte Européia de Direitos Humanos, e de integração regional, como a União Européia e o Mercosul; e ainda a proliferação de tratados internacionais, como o Protocolo de Kyoto (acordo mundial que pretende reduzir o lançamento de gases causadores do efeito estufa aos níveis de 1990). “Todos esses fatores estão contribuindo para uma maior interdependência dos povos e, conseqüentemente, para o surgimento da globalização jurídica", explica o advogado. Desequilíbrio de poderDentro desse quadro, que Matias chama de “sociedade global”, um dos problemas é que muitas vezes acontece um desequilíbrio de poder entre os Estados. “No caso do Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, alguns países possuem um poder de veto; o mesmo ocorre com o FMI, onde, pelo número de votos que possuem, os Estados Unidos tem esse mesmo poder. São condições que podem favorecer ou desfavorecer certos países.” Como aspectos positivos, Matias cita o caso de acordos regionais como o Mercosul e a União Européia. “Ao se unirem nesse tipo de acordo, os Estados podem trazer benefícios diretos para a população.” Valores universaisPara o advogado, esse modelo de sociedade global — onde determinadas instituições globais cada vez mais se fortalecem e o poder dos Estados diminui — pode se transformar, a longo prazo, em uma “comunidade global”, com valores universais comuns a todas as pessoas, sem deixar de lado a pluralidade dos povos: é o que Matias define como “humanidade sem fronteiras”. Para realizar o estudo, o pesquisador partiu da análise de mais de 500 livros e artigos publicados sobre o assunto e também da própria experiência como advogado da área de direito internacional. O autor estuda o tema desde o mestrado, realizado na Universidade de Paris II, na França, além de ter sido visiting scholar da Columbia University, em Nova York.

Friday, November 25, 2005

"Globalização e soberania", artigo Jornal do Brasil, 26/11/05

Por: Eduardo Felipe P. Matias

A globalização é um fato e, por isso, não se pode atribuir a ela um caráter intrinsecamente bom ou mau. No entanto, esse fenômeno afeta a soberania dos estados, e isso sim pode causar efeitos significativos sobre a sociedade.
A soberania tem dois significados principais. Ela pode ser entendida como o próprio poder estatal - o conjunto de competências que um estado possui -, ou como uma qualidade desse poder do estado, que deve ser supremo em seu interior e independente em seu exterior.
Poder é a capacidade de impor sua vontade aos demais, produzindo um efeito desejado. A efetividade é uma medida dessa capacidade, essencial para a soberania: se o poder do Estado perde efetividade - quando não consegue implementar políticas públicas, ou quando diminui seu controle sobre seu território e suas fronteiras - sua soberania se reduz de fato.
A outra acepção de soberania - a de supremacia interna e independência externa - pode se resumir na noção de autonomia, que é a capacidade de agir livremente. A autonomia é fundamental para a soberania. Caso o Estado tenha de se curvar à vontade de um outro poder, ele não pode mais ser considerado autônomo, e, portanto, plenamente soberano. E, com a globalização, o poder do estado torna-se menos efetivo e autônomo.
A globalização, ainda que tenha raízes no passado, passou nos últimos anos por uma aceleração que levou a interdependência dos povos a alcançar intensidade inédita, graças, em grande parte, à revolução tecnológica. Esta afeta principalmente a efetividade do poder estatal. Ao não conseguirem, por exemplo, proibir atividades ilegais no ciberespaço, diminui o controle dos estados sobre seu território e sua população. A maior contribuição dessa revolução se dá, contudo, no fortalecimento das empresas transnacionais e dos mercados financeiros - característica marcante da globalização. No caso das primeiras, sua forma de atuação, baseada em uma estratégia global, também acarreta perda de controle pelos Estados. No que se refere à globalização financeira, a revolução tecnológica colabora para o crescimento do volume e da mobilidade dos fluxos.
Desse modo, o poder estatal é hoje menos efetivo. É importante lembrar, entretanto, que um dos principais papéis que o estado adquiriu ao longo dos anos foi o de regulador da atividade econômica dentro de seu território. Se o poder de controle é essencial à efetividade, e se a efetividade é essencial à soberania, sempre que o estado não conseguir controlar os atores transnacionais sua soberania é afetada.
A globalização também produz conseqüências sobre a autonomia do poder estatal. Essa afirmação poderia parecer contraditória, já que os estados exercem papel ativo na promoção da globalização. São eles que, por meio da desregulamentação dos mercados, ou de acordos de livre comércio, permitem que a globalização financeira e o comércio internacional ganhem força. No entanto, essa atitude dos estados se justifica por sua necessidade de atrair capital, que leva a que investidores possuam enorme poder de pressão. Isso pode impedir a adoção pelos estados de certas políticas econômicas condenadas por esses atores privados.
Imaginar mecanismos para que o interesse da maioria prevaleça e para que o poder seja exercido de forma efetiva e legítima é um dos grandes desafios da sociedade global que está surgindo.

"A sustentabilidade das empresas se traduz em lucro", Valor Economico, 3/10/05

Por: Mara Luquet

Talvez não seja uma boa idéia comprar ações de uma empresa cujo carro-chefe de seus produtos seja a máquina de escrever. Relíquia num mundo digital, ela ocupa hoje, na melhor das hipóteses, lugar privilegiado na decoração de algumas casas de escritores, jornalistas e saudosistas de um tempo que definitivamente não volta mais. Pelo mesmo motivo, investidores que num passado não muito distante vislumbraram a relevância que teria os computadores pessoais nos lares modernos e ficaram ricos com ações de empresas como as da Microsoft , só para citar um exemplo.

Para fazer bons investimentos no longo prazo, melhor do que ir atrás de "dicas" é formar sua própria opinião sobre como será o futuro de consumidores, organizações e países. Esta análise vai chamar sua atenção para oportunidades de investimentos que podem se revelar verdadeiras minas. Além disso, vai alertar para riscos que hoje parecem não existir. Depois que esse mundo novo começar a se formar em sua imaginação, consulte relatórios de analistas sobre empresas que você acredita que vão se sobressair no futuro.
Neste sentido, vale a pena ler "A Humanidade e suas Fronteiras - do Estado Soberano à Sociedade Global", de Eduardo Felipe P. Matias, editado pela Editora Paz e Terra, que será lançado na próxima terça-feira, em São Paulo, na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Matias é doutor em direito internacional pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde também se graduou. É mestre em direito Internacional pela Universidade de Paris II e visiting scholar na Columbia University, em Nova York. Atualmente está em São Paulo e é sócio do escritório L.O. Baptista Advogados .
Veja, por exemplo, o que diz Matias no livro: "Um dos fenômenos mais importantes relacionados à ascensão da sociedade global é o surgimento de uma sociedade civil transnacional. As organizações não-governamentais são essenciais para a formação de uma consciência global e para o combate a determinados problemas comuns da humanidade - e o poder de pressão por elas exercido também tem conseqüências sobre a soberania estatal".
Matias observa que o maior crescimento das ONGs coincide com o período de aceleração do processo de globalização. "A aparição de problemas transnacionais, por exemplo, os de caráter ambiental - como o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio e a poluição transfronteiras -, levam ao surgimento de ONGs transnacionais e de alianças entre diversas ONGs em todo o mundo".
Se for assim, por mais que lhe pareça que as ações de uma empresa ofereçam boas oportunidades de ganhos, é fundamental analisar sua sustentabilidade no longo prazo, principalmente se estiver contando com essas ações para sua aposentadoria.
A empresa que ignorar esse cenário mostrado por Matias não se sustenta no longo prazo. Daí a importância de fazer um exame acurado dos investimentos socialmente responsáveis. Nunca é demais repetir: estas aplicações nada têm a ver com caridade. Estão amparadas em estudos que mostram que as companhias socialmente responsáveis devem ter vida mais longa e retornos mais atraentes do que outras que ignoram este novo modelo de sociedade. Essas empresas socialmente responsáveis, dizem os analistas, não terão seus lucros tragados por processos judiciais trabalhistas ou por pesadas multas ambientais ou simplesmente não sofrerão boicotes de consumidores mais propensos a prestigiar empresas que tenham compromissos com seus funcionários, com o meio ambiente, com a sociedade e com seus acionistas.
As empresas socialmente responsáveis estão amparadas por esses pilares e, pelas razões mostradas por Matias em seu livro, tendem a ter um futuro mais próspero do que outras que não respeitam esses valores.
No livro, Matias faz uma análise interdisciplinar da ascensão da sociedade global, que se deve a duas forças principais. A primeira é a globalização, impulsionada pela revolução tecnológica e pela atuação das empresas transnacionais e dos operadores financeiros. A segunda é a globalização jurídica, caracterizada pela crescente regulamentação internacional e pelo fortalecimento das organizações internacionais de cooperação e de integração regional. Enquanto a globalização torna as fronteiras que separam os Estados mais e mais permeáveis, o direito e as instituições globais, que unem a humanidade em torno de objetivos comuns, ampliam as suas próprias fronteiras.
Trata-se de um livro que vai ajudar a compreender de que forma a globalização e outros importantes fenômenos contemporâneos, como a revolução tecnológica, a integração regional e o fortalecimento das organizações internacionais, afetam o poder dos Estados.
Mara Luquet é editora da revista ValorInveste e autora do Guia Valor Econômico para o Planejamento da Aposentadoria.

"Além da globalização", CartaCapital, 12/10/05

Por Redação CartaCapital

A valorização do indivíduo e da sociedade global e a redução do poder estatal são motes que conduzem A Humanidade e Suas Fronteiras – Do Estado Soberano à Sociedade Global (Paz e Terra, 556 págs., R$ 45), de Eduardo Felipe P. Matias. Mestre pela Universidade de Paris II, doutor pela Faculdade de Direito da USP e advogado especializado no campo do direito internacional, o autor debruça-se na pesquisa sobre como a globalização, a revolução tecnológica e o fortalecimento das organizações internacionais redimensionam o poder e a soberania dos Estados contemporâneos. Segundo a ótica de Matias, essa nova instituição que ele chama de “sociedade global” vem gradualmente substituindo o Estado soberano como paradigma de organização da humanidade. O aumento de poder das instituições internacionais, transnacionais e supranacionais, para ele, nos conduziria a uma diluição e a um compartilhamento maior da soberania – enfim, à humanidade sem fronteiras que batiza seu trabalho.

"A Humanidade e suas Fronteiras", Revista Amanhã, Edição 214, Outubro de 2005


As instituições políticas do mundo contemporâneo estão passando por uma profunda transformação: aos poucos, o Estado nacional deixa de ter domínio absoluto sobre as diretrizes que guiam a vida de seus cidadãos. Essa metamorfose é o tema central de "A Humanidade e suas Fronteiras", obra do advogado Eduardo Felipe Pérez Matias. Para o autor, o papel que antes pertencia ao Estado agora passa para organismos internacionais, como as Nações Unidas. Essas entidades determinam regras comerciais e jurídicas e apontam as metas para o futuro de cada país - combate ao desemprego e diminuição da mortalidade infantil, por exemplo. As normas definidas por organismos multinacionais se disseminam com naturalidade, graças à comunicação globalizada e à aproximação comercial entre países distantes. Para Matias, esse processo deve levar o mundo a um patamar superior de democracia, desenvolvimento e respeito aos direitos humanos. (Erik Farina) Eduardo Felipe Pérez Matias
Livro:
A Humanidade e suas Fronteiras Autor: Eduardo Felipe Pérez Matias Editora: Editora Paz e Terra Páginas: 560Preço: R$ 45

Thursday, November 24, 2005

"Os Estados já não são tão supremos nem tão independentes", Entrevista AOL, 10/10/05


AOL - Sobre o que é o livro?
Eduardo Matias - O livro trata basicamente dos efeitos da globalização sobre os poderes do Estado. Quando eu falo globalização é a globalização e alguns fenômenos relacionados a ela. É a globalização econômica, a questão da globalização financeira, a revolução tecnológica, com o surgimento da Internet, e o que eu chamo de globalização jurídica, que tem duas vertentes: a proliferação dos tratados internacionais e das organizações internacionais. Eu vejo como todos esses fenômenos atuais afetam o poder estatal.

AOL - O que é globalização? E a globalização jurídica?
E.M. - A globalização nada mais é do que uma intensificação da interdependência dos povos. A interdependência é um fenômeno antigo, e o aumento dessa interdependência é a globalização. A globalização jurídica também é uma intensificação dessa regulamentação da interdependência dos povos. Ela surge como resposta à globalização. E a melhor maneira de se responder a alguns problemas que surgem com a globalização é a cooperação internacional. O aumento da cooperação internacional e de outros fenômenos paralelos, como a integração regional, é o que chamamos de globalização jurídica.
AOL - Como a sociedade global vem substituindo o Estado Soberano?
E.M. - A soberania tem duas idéias implícitas nela. A primeira é a do poder do Estado e a segunda é de uma qualidade desse poder. O poder tem que ser supremo e independente. E o que está acontecendo? Atores privados, transnacionais (as grandes empresas transnacionais, os operadores financeiros etc) ganham força. Eles começam a influir cada vez mais nas decisões do Estado. Além disso, alguns fenômenos, como a revolução tecnológica, com a Internet, que fazem com que o poder do Estado perca um pouco da efetividade. Novas instituições substituem algumas das funções do Estado. Qual a terceira coisa importante? As organizações internacionais. Elas criam órgãos, como tribunais internacionais em que, muitas vezes, a vontade desses órgãos se sobrepõem à vontade dos Estados. Ao se submeterem a esses órgãos, como acontece na OMC (Organização Mundial do Comércio), os Estados já não são tão supremos no seu interior e nem tão independentes quanto eram antes. A ascensão da sociedade global é exatamente essa transferência de poder do ator tradicional, o Estado Soberano, para alguns novos atores. Quando se tem uma mudança de instituições, se tem uma mudança de modelo, porque a explicação do mundo em que a gente vive se baseia nas instituições que predominam na sociedade. Então se hoje a gente tem instituições que são globais, a gente pode falar em sociedade global.
AOL - Qual o poder do Estado hoje?
E.M. - O poder do Estado hoje ainda é grande, não vamos aqui dar a impressão de que o Estado acabou. O Estado tem um poder muito grande inclusive porque é ele quem faz o direito internacional, celebrando acordos. Então ele é fundamental do ponto de vista da globalização jurídica. Ele constrói o direito internacional. Só que, ao mesmo tempo em que exerce a soberania assinando um acordo, que é uma prerrogativa do Estado, ele limita seus poderes. Então o poder do Estado hoje é limitado em relação a essa conjuntura internacional. Se distribuíssemos uma porcentagem de poder, diríamos que ele é menos soberano do que um tempo atrás.
AOL - E a tendência é isso acontecer cada vez mais?
E.M. - Aparentemente sim. A direção da globalização jurídica, da globalização econômica, parece um fato inevitável. Não sabemos onde isso pode chegar. O último capítulo do livro procura analisar a possibilidade de termos um modelo que é ainda mais avançado, o de humanidade sem fronteiras. Mas esse modelo traz alguns problemas que devem ser questionados. Hoje o Estado é a entidade que reúne as condições de legitimidade democrática que garantem a pluralidade. Se você parte para um modelo de organização global ou, mais além disso, de humanidade sem fronteiras, tem que garantir que esses requisitos que o Estado com o tempo foi adquirindo, de legitimidade democrática, sejam também atendidos. Muitas vezes isso não ocorre. Algumas dessas organizações internacionais são questionadas exatamente porque não são muito transparentes. É importante também falar outro ponto, não só a questão da legitimidade democrática, mas as funções do Estado. O Estado foi concebido de uma forma para proteger a sociedade, garantir a paz interna da sua população, e com o tempo foi adquirindo funções como, por exemplo, de promoção da justiça social, do desenvolvimento econômico do seu povo. Temos que fazer com que as instituições da sociedade global cumpram essas mesmas funções.
AOL - Os territórios e as fronteiras estão perdendo sua importância?
E.M. - Quando eu falo na diluição das fronteiras é porque existe ainda uma restrição muito grande, por exemplo, para que as pessoas vão trabalhar em outro lugar. Você vê os brasileiros tentando ir para os Estados Unidos. Essa fronteira existe ainda. O que eu mostro no livro é que algumas fronteiras não existem mais. Por exemplo, o ciberespaço é um espaço econômico, de informação, sem fronteiras. Regular o que acontece no ciberespaço é muito difícil. Quando há fluxos financeiros, a chamada moeda virtual, ataques especulativos, você tem uma rapidez muito grande de transferência de dinheiro e também diminui a diferença das fronteiras.
AOL - As empresas exercem as funções do Estado? Quais?
E.M. - Eu não diria. As empresas hoje têm uma preocupação muito grande com responsabilidade social. O que é uma grande virtude. É uma coisa a ser estimulada. De funções do Estado propriamente ditas que as empresas substituam, eu acho mais difícil achar exemplos. Se acontece, é quando a empresa acaba sendo um centro de convivência para as pessoas que trabalham para ela e cria um sentido de comunidade. Mais que a empresa, vale a pena a gente entender como a sociedade civil, transnacional, substitui o Estado em alguns casos. Aí, sim, a gente pega as ONGs, principalmente essas grandes organizações não-governamentais internacionais. Na África, por exemplo, no caso do auxilio contra a fome, há funções do Estado que realmente são desempenhadas por empresas. É muito interessante esse fenômeno, porque a sociedade civil acaba respondendo às deficiências do Estado. Em alguns casos em que o Estado é fraco, ela o substitui no exercício de algumas de suas funções.
AOL - Então são essas organizações que estão substituindo o Estado Soberano?
E.M. - Eu não gosto de falar “substituindo”. Mesmo no livro eu procuro falar que o Estado tem uma importância muito grande ainda hoje. Não gosto de falar que o Estado perde sua função ou coisas do tipo. Essas organizações limitam o poder do Estado, sem dúvida, e ao fazer isso elas ganham poder. O poder é a capacidade de alguém fazer alguma coisa que quer.
AOL - A idéia não é que o Estado está deixando de ter poder, mas sim que está dividindo esse poder?
E.M. - Exatamente. A noção que eu defendo no livro é a noção de “soberania compartilhada”. O Estado não é mais aquele soberano absoluto do passado, ele compartilha a soberania em diversos níveis. Se o Brasil resolver barrar a entrada de algum produto de um país membro da OMC, pode ser questionado perante os órgãos de solução de disputa da OMC. Caso isso ocorra, o Brasil talvez seja obrigado, por ter um custo de oportunidade muito grande em não aceitar a decisão da OMC, a aceitar a entrada do produto que ele não gostaria de ver lá dentro, ou de baixar uma alíquota que gostaria que fosse alta, ou revogar uma lei de proteção ambiental que prejudique o livre comércio que o Brasil gostaria de manter.
AOL - E os grandes poderes estatais, como o dos Estados Unidos?
E.M. - Temos um problema realista, de alguns países que são tão fortes que podem até manipular essas regras a seu favor. Os EUA, por exemplo, em relação às regras financeiras internacionais, têm um poder muito grande. No FMI (Fundo Monetário Internacional), os EUA chegam a ter um poder de veto. Os EUA claro que talvez sejam um pouco mais soberanos do que outros Estados. Nesse jogo de quem ganha quem perde, eles perdem menos. Mas não quer dizer que não percam. Os EUA se submetem às decisões da OMC. Eles perdem muitas vezes e perdem valores altos. Um caso emblemático é que eles tinham mecanismo de incentivo às exportações e esse mecanismo foi questionado perante a OMC e eles perderam. E o valor, em medidas compensatórias, chegava a 4 bilhões de dólares. E aí que está a graça da nova configuração de forças mundial. Então o custo de oportunidade de não se submeter a uma decisão da OMC é muito grande e nem os EUA podem se dar ao luxo de fazer isso.

A ascensão da Sociedade Global, AOL, 10/10/05

A globalização já faz parte de nossas vidas. Há quem não saiba mais viver sem Internet. Comércio com todos os lugares do mundo, notícias em tempo real e outros fenômenos aparentemente corriqueiros são frutos desta intensificação da interdependência dos povos. Livro recém-lançado explica as mudanças pelas quais estamos passando

Por Lilian Ferreira, da Redação AOL

Analisar de que forma a globalização e outros fenômenos contemporâneos afetam o poder do Estado é a proposta do livro “A Humanidade e suas Fronteiras - do Estado Soberano à sociedade global”.

Recém-lançado por Eduardo Felipe P. Matias, sócio do escritório L.O.Baptista Advogados Associados e Doutor em Direito Internacional da USP, o livro resulta de anos de pesquisa em instituições como Universidade de São Paulo, Universidade de Paris, Universidade Columbia em Nova York – além da experiência profissional do autor no campo do direito internacional e da consulta a uma bibliografia com mais de quinhentos livros e artigos.

Matias analisa as transformações que estão ocorrendo no mundo com o foco principalmente no Direito. Isso porque, com a crescente regulamentação internacional e o fortalecimento das organizações internacionais de cooperação, como a OMC (Organização Mundial do Comércio), surge mais uma vertente da globalização, a globalização jurídica.

O poder soberano do Estado, efetivo e autônomo, se encontra diluído, levando à ascensão do modelo de sociedade global, em que organizações internacionais compartilham a soberania. Com finanças, leis e interesses cada vez mais comuns a diferentes países, as fronteiras podem perder sua importância, caminhando para o novo modelo de humanidade sem fronteiras.

A humanidade e suas fronteiras – do Estado Soberano à sociedade globalAutor: Eduardo Felipe P. MatiasEditora: Paz e TerraNúmero de páginas: 556 páginasPreço: R$ 45,00

A sociedade Global, MundoRI.com, 4/11/05

De que maneira a globalização transformou o relacionamento das nações?
A chamada globalização nada mais é do que a intensificação da interdependência dos povos. Essa interdependência sempre existiu em maior ou menor grau. Pode-se entender que o início da globalização se deu na época das grandes navegações, ou no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, quando a adoção do padrão-ouro e as inovações nos transportes e nas comunicações, como as ferrovias, os barcos a vapor e os cabos telegráficos submarinos intercontinentais, levaram a uma intensa internacionalização. No entanto, alguns fenômenos recentes aceleraram essa tendência e acrescentaram novos fatores – como a Revolução Tecnológica – que influem no relacionamento dos povos, o que nos permite caracterizar esse fenômeno, nos moldes que ele apresenta atualmente, como algo jamais visto. Hoje, mais do que nunca, eventos distantes têm influência sobre acontecimentos locais, e vice-versa.
Como a Revolução Tecnológica afeta o desenvolvimento e as relações entre os países?
A revolução tecnológica levou à chamada economia digital e à idéia de que o saber é o principal recurso de uma nação – teríamos entrado na chamada “era da informação”. O surgimento da Internet leva a uma mudança radical na produção e na comercialização de bens e serviços, tendo efeitos tanto sobre a relação de uma empresa com seus fornecedores quanto com seus consumidores. As empresas transnacionais se aproveitam desse contexto e se fortalecem, planejando suas ações com o objetivo de vender para o mercado global. Com a Revolução Tecnológica, o Estado, por sua vez, vê o seu poder de controle diminuir, o que têm conseqüências sobre a efetividade de suas ações. Em algumas áreas, ele passa a ter dificuldades de implementar regulamentações desejadas – caso de atividades ilegais que o Estado pretenda coibir e que podem ocorrer no ciberespaço, como os jogos de azar. Assim como ocorre em outras áreas, como a da proteção ao meio-ambiente, a Revolução Tecnológica leva a situações que só podem ser resolvidas por meio da cooperação internacional.
No livro “A Humanidade e suas Fronteiras” o senhor fala sobre três tipos de globalização: tecnológica, econômica e jurídica. Por quê diferenciar cada tipo de globalização?
A globalização é um fenômeno complexo, com diversas vertentes. A mais evidente delas é a globalização econômica, que compreende o fortalecimento das empresas transnacionais, o aumento do comércio internacional e o surgimento de um mercado financeiro mundial. A Revolução tecnológica reforça esse fenômeno, à medida que serve de instrumento, por exemplo, para a globalização financeira, pois assegura a interligação dos mercados e a mobilidade com que valores astronômicos transitam pelo planeta. A reação a essa aceleração da interdependência dos povos é a globalização jurídica. Ela se caracteriza pela proliferação dos tratados internacionais, como forma de resolver os problemas que os Estados têm em comum, e pelo fortalecimento das organizações internacionais, que se dá em dois níveis: internacional, por meio de organizações como a OMC e o FMI, e regional, por meio de blocos econômicos como a União Européia e o Mercosul.
Como o senhor analisa a atuação dos Estados Unidos nas principais organizações internacionais como ONU, OMC e Banco Mundial?
Os Estados Unidos têm um poder muito grande dentro dessas organizações, e procuram exercê-lo sempre que possível. A tendência ao unilateralismo é a regra, principalmente em questões militares e de segurança, como ficou demonstrado, por exemplo, na Guerra do Iraque. Na área econômica, os Estados Unidos também gozam de posição privilegiada – o número de votos de que dispõem no FMI, por exemplo, lhes garante direito de veto.No entanto, a novidade que merece ser apontada é que nem os Estados Unidos estão livres da influência que algumas organizações internacionais exercem sobre o poder estatal. Ainda na área econômica, a OMC conta com mecanismos que podem levar até mesmo uma nação poderosa como a norte-americana a ter de rever uma legislação interna que venha a ser julgada contrária ao livre-comércio. E os Estados Unidos têm perdido com uma certa freqüência disputas no Órgão de Solução de Controvérsias dessa organização, e muitas vezes têm se submetido a essas decisões desfavoráveis, ainda que contra a sua vontade.
O senhor fala no livro sobre a formação de uma “sociedade global”, composta por uma consciência global e interesses comuns. Como isso vem acontecendo?
A sociedade global está substituindo o modelo tradicional de organização da humanidade, que é o do Estado soberano. Surgem instituições transnacionais, internacionais e até mesmo supranacionais, cujo poder passa a limitar a soberania estatal. É precisamente o fortalecimento dessas instituições que nos permite dizer que o mundo passa por transformações que justificam caracterizá-lo por meio de um novo paradigma.Uma possível evolução desse modelo, hipótese que abordo no final do livro, ocorreria com o aprofundamento de alguns fatores já existentes, como a valorização do indivíduo e da idéia de comunidade internacional. A atuação, por exemplo, da sociedade civil transnacional, por meio de ONGs, poderia contribuir em longo prazo para a consolidação de alguns valores comuns a toda a humanidade. Esses valores poderiam dar origem a uma comunidade que não seria apenas internacional, mas global, levando-nos a um novo modelo, o de uma humanidade sem fronteiras.
O livro “A Humanidade e suas Fronteiras”, apesar de ter sido lançado recentemente, tem sido muito comentado entre os acadêmicos e especialistas da área. Como o senhor vê a repercussão dos temas internacionais no Brasil?
O livro trata principalmente da perda de poder por parte dos Estados devido à globalização. É um exemplo marcante de como fatores internacionais podem afetar uma nação, e isso ocorre de forma mais acentuada em um país em desenvolvimento como o Brasil, o que explica a repercussão do tema por aqui. A soberania deve ser entendida como o poder estatal em si, mas, principalmente, como a efetividade e a autonomia desse poder. À medida que a atuação das empresas transnacionais, do mercado financeiro global, das organizações internacionais e dos blocos econômicos regionais passa a limitar a atuação do Estado, a soberania deste último se enfraquece.
A necessidade de atrair capital e o custo de oportunidade de não participar dos arranjos institucionais mundiais levam os países, principalmente aqueles em desenvolvimento, a restringir suas opções políticas e econômicas. O problema é que, muitas vezes, as instituições da sociedade global não atendem a certos requisitos e funções que os Estados, com o tempo, foram levados a atender, como a legitimidade democrática, a promoção do desenvolvimento econômico e da justiça social. Temas internacionais como esse têm efeitos muito significativos sobre a vida de nosso país, merecendo por isso toda a nossa atenção.
Livro“A Humanidade e Suas Fronteiras: do Estado Soberano à Sociedade Global”Autor: Eduardo Felipe P. MatiasEditora: Paz e TerraPreço: R$ 45,00Número de pág.: 556-4/11/2005

Revista Época, Edição 392 - 21/11/2005

As nações e a globalização

O advogado Eduardo Matias analisa os efeitos da globalização e dos avanços tecnológicos no papel das nações - instituições que vêm cedendo lugar à chamada sociedade global. Trata-se de estudo aprofundado e inteligente sobre o tema.

A Humanidade e Suas Fronteiras, Eduardo Felipe P. Matias, Paz e Terra.